Histórias

ESTAÇÃO CENTRAL

ESTAÇÃO DE PASSA QUATRO

Quando a locomotiva nº 7, a famosa “Couto de Magalhães”, em homenagem ao segundo concessionário para construir a ferrovia The Minas and Rio Railway, pois o primeiro fora o Barão de Mauá, apitou na curva, a população da Passa Quatro e da região estremeceu: era a viagem inaugural, trazendo o Imperador D. Pedro II e sua imperial comitiva. A folhinha marcava: 14 de junho de 1884.
O Imperador saiu do vagão especial para receber os saudares do povo e das autoridades. O Imperatriz Teresa Cristina e o Marechal Conde D’Eu não saíram do vagão, e foi lá que receberam apenas Ana da Mota Pais e sua filha Francisca Ribeiro Pereira Tibúrcio, conforme relata Helena Carneiro em seu livro Memórias de Passa Quatro.
Ana da Mota Pais era a fundadora da cidade, quando iniciou, erguendo, em louvor a São Sebastião, uma capela. Como grande proprietária de terra, doara à ferrovia um alqueire de terreno para que nele fosse implantado o pátio ferroviário, além de ter incentivado outros fazendeiros a fazer o mesmo. A escritura do ato doatário foi lavrada em Pouso Alto, em 1882.
A ferrovia levantou a Vila de sua pasmaceira, pois quatro ano após a sua inauguração, um abaixo-assinado chegou a Ouro Preto, capital da Província, pedindo a emancipação do então Distrito da comarca de Pouso Alto. Em 1888, a lei foi votada e, em 1890, o município, instalado.
Com a ferrovia, os capitais antes investidos em tropas de carga, buscaram novos investimentos, e a lavoura fumageira avançou para se tornar a principal atividade econômica. Dezenas de armazéns de fumo surgiram. A cidade se expandiu. Novas ruas, praças e avenidas, novos loteamentos. Escolas, Santa Casa, hotéis, bares, jardins. Os chafarizes trocados por rede de água. As fossas trocadas por rede de esgoto, ambas redes projetadas pelo famoso engenheiro Paulo de Frontin.
A ferrovia permitiu a exportação de milhares de arrobas de fumo para vários estados. Centenas de empregos criados. Os viajantes viajavam com cadernetas quilométricas, emitidas pela ferrovia.
O hábito social alterado: aos domingos, a juventude municipal fazia o footing na estação em dois horários: no Expresso das 11, que buscava Cruzeiro, e no Expresso das 15 horas, que voltava de Cruzeiro.
Durante certo tempo, funcionou na estação um restaurante, onde até políticos de renome almoçaram, muitas vezes, quando visitavam a cidade.
Até 17 de julho de 1921, a cidade usava o telégrafo da estação para transmitir ou receber seus telegramas; após aquela data inaugurou-se a agência do Telégrafo Nacional, segundo o semanário passaquatrense Correio do Sul, de 24 de julho de 1938.
A diretoria da estrada de ferro estava sediada em Cruzeiro, SP. Em 1930, era seu diretor Alcides Lins. Quando explodiu a Revolução de 30, esse engenheiro, com a cooperação dos demais funcionários da Rede Mineira Viação, em pouco tempo, conse-guiu transferir a maior parte do material rodante para Passa Quatro, que passou a ser, então, a sede da ferrovia.
O trem que viera fechando a viagem, já numa operação de guerra, tivera uma missão: passar graxa nos trilhos buscando impedir ou retardar a possível perseguição das tropas paulistas.
Em Passa Quatro, Alcides Lins passou o seguinte telegrama para Alaor Prata, do Governo de Minas:
“Comunico estação rádio Cruzeiro fechada e não havendo lá elementos de resistência efetivo, vem acompanhado dos che-fes de tráfego. Todas as providências que tempo permitia foram tomadas. Todo o dinheiro aqui.”
Da estação de Passa Quatro expediu dezenas de telegramas às autoridades mineiras, informando, pedindo reforços, indi-cando estratégias, clamando providências; depois, quando as tropas paulistas desceram a serra, ele, sempre muito bem infor-mado, levou seus vagões e locomotivas para Soledade.
O pátio ferroviário era um grande depósito de lenha para mantença das caldeiras das locomotivas. Daqui até o alto da Mantiqueira, na boca do túnel, eram necessárias duas locomotivas para levar um trem até a estação de Cel. Fulgêncio. Em che-gando lá, uma máquina retornava a Passa Quatro, pois, para descer até Cruzeiro, uma locomotiva bastava.
Passa Quatro recebia quatro trens diários: dois expressos e dois mistos; um misto e um expresso iam para Cruzeiro e ou-tro tanto retornava.
Mas, geralmente, o misto das 18 horas para Cruzeiro sempre teimava em chegar às 21 ou às 22 horas…
Durante o governo Milton Campos houve, na Rede Mineira Viação, uma greve de repercussão nacional, que a escritora baiana Alina Paim registrou num romance: A HORA PRÓXIMA, onde a autora usou as estações de Cruzeiro e Passa Quatro como cenário para seus personagens, alguns verdadeiros.
Depois, que a ferrovia passou a usar locomotivas movidas a óleo, algumas pessoas pobres que moravam ao longo da linha sofreram no bolso com este avanço tecnológico: os maquinistas atiravam feixes de lenha para tais moradores…
Quando ainda não se falava em asfaltar as estradas de terra do Sul de Minas, a Rede Mineira Viação colocava, na época do veraneio, vagão-salão, com poltronas individuais, forradas de capas brancas e giratórias, para os veranistas que do Rio buscavam São Lourenço e Caxambu.
Os carros restaurantes prestavam um bom serviço à população de Passa Quatro: eles eram a salvação de muitas pessoas doentes, já que mercavam maças argentinas. Naquela época, acreditávamos que maça era fruta de doente… e ninguém as vendia na cidade.
A estação, nas épocas áureas, vivia cercada de carroças e charretes. Quase todo o fumo, milhares de arrobas por ano, era transportado para a estação, em carroças. Havia firma de tão grande movimento exportador que, quando marcava o dia da ex-portação, os despachantes da ferrovia avisavam as demais para que não levassem mercadorias ao armazém ferroviário.
Em 1927, segundo Heli Menegale, escrevendo na revista ELÉTRICA, de Itanhandu, a ferrovia arrecadara cerca de trezen-tos contos de réis em frete, a maior parte dos fumageiros. O Estado, nesse mesmo ano, amealhara cem contos, e o Governo Federal igual quantia, já a municipalidade, cento e cinqüenta contos de réis.
Não se sabe qual a misteriosa razão que levou ao abandono a malha ferroviária do país, tão importante como meio de transporte em qualquer parte do mundo, haja vista os modernos trens do Japão e da França.
Parece que há uma nova mentalidade surgindo para recuperar o que foi tão mal perdido. Ainda bem, já que uma ferrovia é, como sempre foi, incentivo ao progresso e foco de novas realizações.

Pedro Mossri
Historiador

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Estação do Manacá


ESTAÇÃO DO MANACÁ

Manacá é um arbusto cujas flores variáveis, conforme o Dicionário do Houaiss, ganham totalidades brancas, roxas e lilases. Suas raízes são purgativas e depurativas.
Poetas e romancistas de todas as escolas literárias como José de Alencar, Fagundes Varela, Bernardo Guimarães, José Veríssimo, Lima Barreto, Mário de Andrade, Guimarães Rosa e tantos outros citaram essa delicada flor em seus livros.
Pode-se levantar a hipótese que, na época da construção da estação Manacá, deveria haver, nas suas cercanias, be-los pés de manacás em plena florescência, para que não se desse o nome de Pinheirinhos a tal construção.
Distante quatro quilômetros da estação central do município, Manacá era ponto de embarque não só para os moradores da sede do futuro distrito mas também para os rurais do Quilombo, Caxambu, Morro, Fazenda Velha e outros bairros.
Pinheirinhos teve sua primeira capela, aliás, a primeira capela também de Passa Quatro, segundo a nossa historiadora Helena Carneiro, erguida por Domingos da Mota Pais, senhor da Fazenda da Cachoeira, mais tarde Fazenda Velha, onde viera morar, em 1810.
Ele era filho do barão Joaquim Félix da Mota Pais, radicado no Rio de Janeiro.
Pinheirinhos, estando à margem do famoso “caminho velho” dos tempos coloniais e imperiais, viu muita tropa passar, levando e trazendo riquezas mil.
Sua denominação veio também de uma vegetação que lhe dá o nome, pois quando os primeiros bandeirantes, vindos do Vale do Paraíba, penetraram nas terras dos cataguás, pela garganta do Embaú, encontraram, ainda em crescimento, tais pinheiros. Daí, Pinheirinhos.
Há menção do nome no livro de Antonil, editado em 1711 – CULTURA E OPOLULÊNCIA DO BRASIL:
“Então, começam a passar o ribeirão que chamam de Passavinte, porque vinte vezes se passa e se sobe às serras, encontrando aprazíveis árvores de pinhães” – ou – “passam outro ribeiro que chamam Passa-Trinta, porque trinta e mais vezes se passa, se vai aos Pinheirinhos, lugar assim chamado por ser o princípio deles” – isto é, o começo do crescimento dos pinheiros.
No “Diário da Jornada que fez o exmo. Dom Pedro de Almeida Portugal, Conde de Assumar, desde o Rio de Janeiro até a cidade de São Paulo e desta até as Minas de Ouro, ano 1717”, após descer a Mantiqueira, a comitiva se encontrou em uma planície “bastantemente grande, adonde estava um sítio chamado o Pinteirinho, habitado por um paulista, que hospedou magnificamente a sua excia.”
Esse “pinteirinho” era o nosso Pinheirinhos.
Em 1732, Francisco Tavares de Brito publicou um ITINERÁRIO GEOGRÁFICO, percorrendo o mesmo caminho de Antonil e do Conde de Assumar, para alcançar as minas de ouro. Assim, o autor do livro sai de São Paulo, passando por várias localidades ao longo do Paraíba. Em Embaú, cruza o Rio Passa Vinte, sobe a Mantiqueira, ultrapassa o Rio Passa Trinta, e aporta em Pinheirinhos.
Com a estrada de ferro, ainda segundo Helena Carneiro, em Memórias de Passa Quatro, o arraial começa a se formar perto da estação Manacá e ladeando o antigo “caminho velho”.
Na Revolução de 1930, Manacá estava praticamente na linha de fogo, pois serviu de base às tropas mineiras. Seu telégrafo foi a única via de comunicação entre as forças em luta e o Palácio do Governo, em Belo Horizonte.
Eis um telegrama dramático passado por Djalma Pinheiros Chagas, às 17:30 horas, de 21 de outubro, de Manacá:
“Inimigos entrincheirados fortemente garganta do Túnel.
Iniciados agora ataques nossa posição regular.”
Mas o telegrama mais esperado foi também enviado de Manacá, pelos Coronéis Fonseca e Marques ao Secretário do Interior, em Belo Horizonte:
“Nossas forças acabaram de ocupar o Túnel, tendo o inimigo se retirado, deixando abandonado alguma munição e outros materiais. Com esse feito está terminada nossa missão nesta linha. Nossas congratulações. Aproveitando a oportunidade reorganizar destacamentos e cumprir ordens Estado Maior. Túnel guardado pelo Tenente Praxedes com 100 homens do Destacamento Fonseca.”
Durante a Revolução de 1932, a pequena estação foi ocupada pelas tropas mineiras e, quando as forças paulistas desceram a Serra, elas também ocuparam-na. Algum tempo depois, tais forças de São Paulo, ante o avanço das tropas de Minas, passaram pela pequena estação sem parar, seus trens ferroviários subindo a Mantiqueira, forçando as locomotivas, mas as tropas mineiras, temendo emboscadas, desprezaram a ferrovia, galgando a serra pela estrada de rodagem e pelos pastos.
A igreja católica de Pinheirinhos é dedicada à Santa Luzia, que ali faz sua festa durante o começo de dezembro, cul-minando tal festejo em 13 de dezembro, com procissão, missas, quermesses, leilões, etc.
Agora, após 120 anos de sua inauguração, a estação Manacá retorna a sua função ferroviária, em prol do turismo e do lazer, embora pequenina e simples, ela continuará a ser o que sempre foi: um ponto de referência na Serra da Manti-queira.

Pedro Mossri
Historiador

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Estação Cel. Fulgêncio

ESTAÇÃO CEL. FULGÊNCIO

A estação ferroviária CEL. FULGÊNCIO está localizada no bairro rural do REGISTRO, no Município de Passa Quatro, na boca mineira do famoso Túnel da Mantiqueira.
A denominação de REGISTRO provém de um posto fiscal instalado ainda nos tempos coloniais e administrado por militares para controlar a saída e entrada de bens de consumo, bem como o contrabando do ouro e pedras preciosas, soldados esses do Regimento de Linha da Capitania de Minas.
No Livro de Entradas de 1777, lavrado em Vila Rica, em 4 de janeiro, na página de rosto, no alto, uma dada: 1776-1777. Logo abaixo: “DIÁRIO DE ENTRADAS DO REGISTRO DA MANTIQUEIRA”. Havia, como é óbvio um “livro de saídas”.
Muitos historiadores afirmam que, depois dos índios, que transitavam pela trilha aberta por eles mesmos para des-cer, através da Garganta do Embaú, até o Vale do Paraíba, Jacques Félix, fundador de Taubaté, foi o primeiro branco a pisar a região, buscando índios. Depois de já formada a Vila de Taubaté, que Fernão Dias, sonhando com suas esmeral-das, penetrou o sertão da gerais. Aliás, Taubaté era uma espécie de pouso de bandeirantes tais como Antônio Rodrigues Arzão, Bartolomeu Bueno de Siqueira, Antônio Dias de Oliveira, Thomé Portes Del Rei e tantos outros. Todos eles buscavam, principalmente, índios para escravizá-los e torná-los mão-de-obra rural.
Durante largo tempo, a Garganta do Embaú foi a única porta de entrada de Minas, posto que quem buscasse o Rio de Janeiro, nessa época, teria que descer a Mantiqueira até a atual Cachoeira Paulista, então Porto da Canoas, subir e descer a Serra do Mar até Parati para pegar um navio que navegasse pro Rio.
Mais tarde, quando um filho de Fernão Dias abriu um novo caminho, ligando o Rio de Janeiro às cidades de Bar-bacena e Ouro Preto, esse nosso caminho passou a ser chamado de “caminho velho”, e é com esse nome que entra em vários livros de história e, recentemente, passa a fazer parte das chamadas “estradas reais”.
Por essa estrada, em lombo de tropas, passou uma quantidade enorme de ouro, pedras preciosas, feijão, milho, carne de porco, escravos, sal, pólvora, movimentando o comércio entre as minas gerais e o resto de Brasil.
O cientista francês Auguste Saint Hilaire, em março de 1822, vindo do interior de Minas, passou no Registro da Mantiqueira, ele e sua comitiva, quatro sofridos dias de frio e chuva, juntamente com diversas tropas, à espera de um tempo melhor para iniciar a descida da serra.
Antes, João Antônio Andreoni, ou Antonil, como ficou conhecido, publicou e, 1711, seu famoso livro – CULTURA E OPULÊNCIA DO BRASIL, onde descreve, entre outras coisas, uma viagem de São Paulo a Minas, através do vale do Paraíba e, após, vencer o Embaú, passa por terras do Registro e vai descansar em Pinheirinhos.
Em 1717, Dom Pedro de Almeida Portugal, Conde de Assumar, vindo de São Paulo, buscando a primeira capital de Minas – MARIANA, também cruzou por terras do Registro.
A construção da Estrada de Ferro Rio Verde, primeiro nome da ferrovia, mais tarde MINAS AND RIO, trouxe deze-nas de operários italianos para a região, além de brasileiros, é claro.
D. Pedro II, interessado em estender a malha ferroviária pelo Brasil afora, visitou duas vezes o túnel: quando foi iniciada as obras de abertura, em 1882, e quando inaugurou a ferrovia, em 1884.
As duas Revoluções – 1930- e 1932 – deram amplo destaque à região. Trincheiras foram abertas, milhares de tiros disparados, armas como canhões, metralhadoras e fuzis despejaram a morte nas grotas e nos morros. Soldados e ofici-ais foram mortos. De entre os oficiais, o Tenente-Coronel Fulgêncio de Souza Santos, “ferido mortalmente por um projé-til”, conforme narra o professor Francis Albert Costa em seu ensaio – As Trincheiras da Mantiqueira – além “dos tenentes Anastácio Rodrigues de Moura e João Luiz de Freitas, esses vitimados por explosão de uma granada de mão”, testemu-nha ainda citado o professor.
Livros escritos sobre tais conflitos, como o de Heli Menegale sobre o Cabo Deodato, militar da Força Pública de Minas, narram o heroísmo de tantos anônimos que, de ambos os lados da serra, lutaram ou se feriram ou perderam vi-das.
Durante tais conflitos, a região do Registro foi visitada por dezenas de personalidades que, com o passar do tem-po, se tornaram figuras destacadas na vida brasileira, tais como Carlos Drummond de Andrade, Gustavo Capanema, do qual o poeta era Secretário, General Eurico Gaspar Dutra, futuro Presidente da República, Benedito Valadares, foi chefe de Polícia no destacamento militar, e futuro governador de Minas, Rubem Braga, correspondente de jornal e futuro cro-nista de renome nacional, Juscelino Kubitschek, que, atuando como médico, descobriu aqui a sua vocação política, como escreveu em suas memórias, e tantos outros.
Em homenagem ao bravo Coronel, o governo de Minas houve por bem reter a memória de seus feitos, dando o nome da Estação Cel. Fulgêncio à pequena estação da Rede Mineira Viação, perdida em nossa Mantiqueira mas, durante o funcionamento da ferrovia, prestadora de relevantes serviços e um ponto de referência para tanta gente da região.
Na década de sessenta, o asfalto cobre o mesmo antigo “caminho velho”, no sentido lato do vocabulário, porque a engenharia rodoviária traçou o seu rumo pelas divisórias de água, deixando a famosa trilha colonial no fundos das grotas, bem como a pequena estação, e o famoso túnel.
Eis que, agora, a centenária ferrovia renasce como prova de sua fortaleza, após alguns anos de total abandono, trazendo a possibilidade de, como atração turística, despertar nos responsáveis o ânimo de reinventá-la com todas as suas pontencialidades. Há que se registrar, nesta empreitada, o valoroso trabalho que vem desenvolvendo a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária – ABPF. E os habitantes deste canto de Minas e de Passa Quatro estaremos aqui, prontos a colaborar pela memória de tal relevante empreendimento, como estaremos também prontos a trabalhar pelo seu futuro.

Pedro Mossri
Historiador

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A Inauguração da Estrada de Ferro Minas e Rio “1884”

MEMÓRIAS DE PASSA QUATRO
“Helena Carneiro”

A Inauguração da Estrada de Ferro Minas e Rio
“1884”

Um friozinho irritante subia da terra úmida e as gotas de orvalho pendiam trêmulas nas verdes folhas e nas flores perfumadas. A passarada traquina rasgava a amplidão do espaço, enquanto o vozerio ruidoso dos animais saudava aquela formosa manhã de inverno. E, já o sol dourava os pícaros dos montes quando os bandos de roceiros, em trajes festivos, desciam pelas picadas e vinham ter à Freguesia.
Ao redor da pequenina Igreja de S. Sebastião de Passa Quatro ou na estaçãozinha recém-construída em meio de esguios pinheiros, grupos alegres e palradores iam se formando, de quando em quando, foguetes explodiam no ar.
Cada cavalhada que se aproximava era recebida com estrepitosas manifestações de prazer.
Eram os Ribeiros Pereiras, os Tibúrcios Ribeiro, os Mottas, os Guedes, os Vieiras, os Lamins, os Almeidas, os Ferreiras, os Siqueiras, que, unidos pelo parentesco e por uma amizade sincera, palestravam animadamente.
Que teria sucedido na pacata freguesia de Passa Quatro, para atrair assim toda a sua população?
Que motivo teria feito reunir à sombra da mesma árvore esses homens, que tempos atrás se debateram em tão terrível luta eleitoral?
Por que eram tão ansiosamente esperados os amigos vizinhos de Pouso Alto, Capivari, Virgínia, Itanhandu e São José do Picu?
Por que tanto foguete, tanta música e tantas flores?
Que festa seria essa que tanto entusiasmo e tanta alegria dava a essa gente montanhesa?
É que nesse memorável dia 14 de junho de 1884 inaugurava-se a Estrada de Ferro Minas e Rio, com a presença de Suas Majestades, os Imperadores do Brasil.
Havia a Diretoria anunciado que Suas Majestades, após o almoço em casa do Major Manoel de Freitas Novais, o patriarca de Cruzeiro, para aqui partiriam, demorando apenas o tempo necessário para o abastecimento das locomotivas. Daqui seguiriam o comboio imperial diretamente a Três Corações, passando somente alguns segundos nas estações do Carmo e Contendas, a fim de apanhar os Barões do Monte Verde e Contendas, respectivamente.
Eis por que eram esperados os habitantes dos lugarejos vizinhos.
Altas patentes da gloriosa Guarda Nacional, políticos, homens de posição, gente de toda a espécie para cá afluíam apressadamente.
A alegria e o entusiasmo iam aumentando à medida que se aproximava a hora determinada para a chegada dos Imperadores.
Já ia alto o sol quando foi anunciada a aproximação do trem real.
Um frenesi correu entre o povo.
Os foguetes estouraram impetuosamente.
A banda de música iniciou o Hino Nacional.
O Capitão Francisco Catarina Rodrigues, de Capivari, assumiu o comando da Guarda Nacional já formada.
Ouviu-se o apito da locomotiva.
Vivas entusiastas encheram os ares.
Mas… não era o comboio imperial!
Era a máquina escoteira, a “Buarque de Macedo” que vinha na vanguarda patrulhando a linha.
Todos se despontaram com o sorriso britânico do maquinista Charles Beek.
Rápido foi o cômico incidente.
Aproximou-se, enfim, o trem real.
Parou.
Desceu S. Majestade D. Pedro II, o magnânimo Imperador das Províncias Unidas do Brasil, que foi vivamente aclamado. Acompanhava-o sua filha, Imperial Princesa D. Isabel.
Todos quiseram aproximar-se e beijar-lhes as mãos augustas.
Não houve discursos.
O protocolo, a pedido de Sua Majestade, os dispensou. Ele quis apenas entrar em contato com os súditos montanheses. Estava satisfeito! A inauguração desta estrada era uma das suas grandes aspirações.
Desceu a comitiva real. Num dos carros ficara repousando S. Majestade D. Tereza Cristina, acompanhada de suas damas e do genro o Marechal Conde D’Eu, recebendo apenas D. Anna da Motta Paes, a venerada Fundadora de Passa Quatro e sua filha D. Francisca Ribeiro Pereira Tibúrcio, com ela mantendo agradável palestra.
O chefe do tráfego deu o sinal de partida. Todos embarcaram.
Partiu a máquina escoteira e dez minutos depois, Henrique Turner, chefe da oficina local, servindo de maquinista na “Couto de Magalhães”, a célebre locomotiva nº 7, deu o sinal e movimentou o trem que, apenas em algumas dezenas de minutos, trouxe a Passa Quatro um dos maiores e dos mais gloriosos dias de sua História.

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Histórico da charrete da família Hess

Histórico da charrete da família Hess

Não há registros oficiais escritos que remetam à charrete de época, a qual se encontra, atualmente, sob os domínios da Prefeitura Municipal de Passa Quatro. Existem pequenas notas do escritor e historiador Pedro Mossri, sendo que este homem concedeu uma entrevista relativa à cidade, através da qual se coletaram informações importantes sobre esse meio de transporte.
Acrescentando alguns detalhes sobre essa conversa com Mossri, a mesma foi realizada no início do ano de 2003; nossos escritos sobre a charrete se basearão em um depoimento oral de uma pessoa que viveu intensamente a história de Passa Quatro. Mesmo se tratando de uma memória particular – cujos mecanismos de seleção são por demais evidentes – consideramos essas falas como importantes fragmentos dos passados, os quais se conjugam dinamicamente com o tempo presente, sob a forma da recordação. Em suma, testemunhos de um homem que viveu intensamente a multiplicidade da vida passaquatrense…
A carruagem foi construída no Estado de São Paulo por volta da década de 20. Não se pode apontar com precisão qual foi o fabricante da mesma, visto que o “rótulo marrom” – assim denominado por Pedro Mossri – não se encontra mais na charrete. Provavelmente esse veículo tenha sido uma encomenda da família Hess, cuja propriedade rural levava o nome de Fazenda do Sobrado.
Com relação a essas terras, cabe mencionar o destaque ocupado pela fazenda na Passa Quatro do início do século XX. Ali funcionava o Laticínio Nova Suíça Ltda, bem como uma representação de maquinário agrícola, gozando de boa credibilidade junto à população. Ademais, interessante citar que no ano de 1912, devido à ocorrência de um eclipse de grande repercussão, a sede dos Hess serviu como instalação para as missões científicas brasileiras e estrangeiras. Nesse mesmo evento vieram para o município o então presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca e seu vice, Wenceslau Braz.
Retornando às rememorações da charrete, Pedro Mossri afirma que ela servia para transportar familiares, conhecidos e pessoas ligadas à Fazenda do Sobrado. Muitas vezes o trajeto da carruagem consistia em uma passagem pelas vias de terra da cidade, tendo como destino final a estação ferroviária – para buscar próximos dos Hess que vinham passar as férias em Passa Quatro, por exemplo. Por ser diferente das demais, a carruagem despertava bastante atenção dos transeuntes, não deixando de ser um símbolo de “status” dos seus ocupantes. O calçamento das vias do município, aliado a alguns decretos que proibiam o tráfego de veículos sem o pneu sintético, foram decisivos para a retirada de circulação desse meio de locomoção.
O engenheiro Maurício Hess doou o veículo à Prefeitura de Passa Quatro em data não especificada; chegou a ser recuperada e guardada em um local adequado com vistas à boa conservação. A carruagem foi ainda emprestada para a produção de um filme nacional e, segundo Pedro Mossri, houve nesse período uma considerável descaracterização: “O diretor desse filme mandou pintá-la de branca, inclusive sua lona, nova em folha, deitando por terra a recuperação.” Ainda tendo o escritor como fonte principal, o mesmo afirmou que em certa administração a carruagem foi removida para um abrigo impróprio, sendo praticamente abandonada.
Carruagem para alguns… Para outros, simplesmente charrete… Não importa a terminologia utilizada! Ambas traduzem muito bem a simbologia que esse meio de transporte enveredou pelos caminhos da jovem Passa Quatro. Trilhas essas que nos contam hoje um pouco da história de uma cidade que ainda busca valorizar aquilo que já integrou seu presente. Enfim, o vivido (re)construído a partir de um significativo meio de transporte, o qual ainda resiste à ação do tempo.

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