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Estação Cel. Fulgêncio

ESTAÇÃO CEL. FULGÊNCIO

A estação ferroviária CEL. FULGÊNCIO está localizada no bairro rural do REGISTRO, no Município de Passa Quatro, na boca mineira do famoso Túnel da Mantiqueira.
A denominação de REGISTRO provém de um posto fiscal instalado ainda nos tempos coloniais e administrado por militares para controlar a saída e entrada de bens de consumo, bem como o contrabando do ouro e pedras preciosas, soldados esses do Regimento de Linha da Capitania de Minas.
No Livro de Entradas de 1777, lavrado em Vila Rica, em 4 de janeiro, na página de rosto, no alto, uma dada: 1776-1777. Logo abaixo: “DIÁRIO DE ENTRADAS DO REGISTRO DA MANTIQUEIRA”. Havia, como é óbvio um “livro de saídas”.
Muitos historiadores afirmam que, depois dos índios, que transitavam pela trilha aberta por eles mesmos para des-cer, através da Garganta do Embaú, até o Vale do Paraíba, Jacques Félix, fundador de Taubaté, foi o primeiro branco a pisar a região, buscando índios. Depois de já formada a Vila de Taubaté, que Fernão Dias, sonhando com suas esmeral-das, penetrou o sertão da gerais. Aliás, Taubaté era uma espécie de pouso de bandeirantes tais como Antônio Rodrigues Arzão, Bartolomeu Bueno de Siqueira, Antônio Dias de Oliveira, Thomé Portes Del Rei e tantos outros. Todos eles buscavam, principalmente, índios para escravizá-los e torná-los mão-de-obra rural.
Durante largo tempo, a Garganta do Embaú foi a única porta de entrada de Minas, posto que quem buscasse o Rio de Janeiro, nessa época, teria que descer a Mantiqueira até a atual Cachoeira Paulista, então Porto da Canoas, subir e descer a Serra do Mar até Parati para pegar um navio que navegasse pro Rio.
Mais tarde, quando um filho de Fernão Dias abriu um novo caminho, ligando o Rio de Janeiro às cidades de Bar-bacena e Ouro Preto, esse nosso caminho passou a ser chamado de “caminho velho”, e é com esse nome que entra em vários livros de história e, recentemente, passa a fazer parte das chamadas “estradas reais”.
Por essa estrada, em lombo de tropas, passou uma quantidade enorme de ouro, pedras preciosas, feijão, milho, carne de porco, escravos, sal, pólvora, movimentando o comércio entre as minas gerais e o resto de Brasil.
O cientista francês Auguste Saint Hilaire, em março de 1822, vindo do interior de Minas, passou no Registro da Mantiqueira, ele e sua comitiva, quatro sofridos dias de frio e chuva, juntamente com diversas tropas, à espera de um tempo melhor para iniciar a descida da serra.
Antes, João Antônio Andreoni, ou Antonil, como ficou conhecido, publicou e, 1711, seu famoso livro – CULTURA E OPULÊNCIA DO BRASIL, onde descreve, entre outras coisas, uma viagem de São Paulo a Minas, através do vale do Paraíba e, após, vencer o Embaú, passa por terras do Registro e vai descansar em Pinheirinhos.
Em 1717, Dom Pedro de Almeida Portugal, Conde de Assumar, vindo de São Paulo, buscando a primeira capital de Minas – MARIANA, também cruzou por terras do Registro.
A construção da Estrada de Ferro Rio Verde, primeiro nome da ferrovia, mais tarde MINAS AND RIO, trouxe deze-nas de operários italianos para a região, além de brasileiros, é claro.
D. Pedro II, interessado em estender a malha ferroviária pelo Brasil afora, visitou duas vezes o túnel: quando foi iniciada as obras de abertura, em 1882, e quando inaugurou a ferrovia, em 1884.
As duas Revoluções – 1930- e 1932 – deram amplo destaque à região. Trincheiras foram abertas, milhares de tiros disparados, armas como canhões, metralhadoras e fuzis despejaram a morte nas grotas e nos morros. Soldados e ofici-ais foram mortos. De entre os oficiais, o Tenente-Coronel Fulgêncio de Souza Santos, “ferido mortalmente por um projé-til”, conforme narra o professor Francis Albert Costa em seu ensaio – As Trincheiras da Mantiqueira – além “dos tenentes Anastácio Rodrigues de Moura e João Luiz de Freitas, esses vitimados por explosão de uma granada de mão”, testemu-nha ainda citado o professor.
Livros escritos sobre tais conflitos, como o de Heli Menegale sobre o Cabo Deodato, militar da Força Pública de Minas, narram o heroísmo de tantos anônimos que, de ambos os lados da serra, lutaram ou se feriram ou perderam vi-das.
Durante tais conflitos, a região do Registro foi visitada por dezenas de personalidades que, com o passar do tem-po, se tornaram figuras destacadas na vida brasileira, tais como Carlos Drummond de Andrade, Gustavo Capanema, do qual o poeta era Secretário, General Eurico Gaspar Dutra, futuro Presidente da República, Benedito Valadares, foi chefe de Polícia no destacamento militar, e futuro governador de Minas, Rubem Braga, correspondente de jornal e futuro cro-nista de renome nacional, Juscelino Kubitschek, que, atuando como médico, descobriu aqui a sua vocação política, como escreveu em suas memórias, e tantos outros.
Em homenagem ao bravo Coronel, o governo de Minas houve por bem reter a memória de seus feitos, dando o nome da Estação Cel. Fulgêncio à pequena estação da Rede Mineira Viação, perdida em nossa Mantiqueira mas, durante o funcionamento da ferrovia, prestadora de relevantes serviços e um ponto de referência para tanta gente da região.
Na década de sessenta, o asfalto cobre o mesmo antigo “caminho velho”, no sentido lato do vocabulário, porque a engenharia rodoviária traçou o seu rumo pelas divisórias de água, deixando a famosa trilha colonial no fundos das grotas, bem como a pequena estação, e o famoso túnel.
Eis que, agora, a centenária ferrovia renasce como prova de sua fortaleza, após alguns anos de total abandono, trazendo a possibilidade de, como atração turística, despertar nos responsáveis o ânimo de reinventá-la com todas as suas pontencialidades. Há que se registrar, nesta empreitada, o valoroso trabalho que vem desenvolvendo a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária – ABPF. E os habitantes deste canto de Minas e de Passa Quatro estaremos aqui, prontos a colaborar pela memória de tal relevante empreendimento, como estaremos também prontos a trabalhar pelo seu futuro.

Pedro Mossri
Historiador

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